O Livro das Mutações
“O homem superior pensa no mal que está por vir e se previne contra ele.”
–O Livro das Mutações
Hoje, ao voltar do trabalho, encontrei-me com amigo, Brandão, e voltamos juntos, como é, semanalmente, ritualístico. Falando da vida, de modo geral – mas nem tanto! -, adentramos um temido assunto: casamento e implicações. Que posso eu dizer sobre esse temível assunto?
Posso dizer que já fui “ajuntado” e que a experiência, aparentemente, não me ensinou muito sobre a dinâmica, porém razoavelmente sobre companheirismo.
Brandão e eu nos conhecemos desde do início da adolescência e cruzamos esse estágio juntos, nada mais justo – e, ao mesmo tempo, estranhamente o oposto – que me convidar para ser padrinho do casal(convite ao qual não me caberia, em nenhuma realidade, declinar).
Respondi:
-Bom.
-Bom o que, estrupício?
-Isso.
-Isso o que, cacete?
-Casar e tudo mais.
-Ah, você acha isso mesmo?
-Com ressalvas, sim.
-Você vai ter que usar um terno.
-Viu?
-O que?
-As ressalvas. Ok, eu posso usar terno, aliás, fico até razoável, mas vai ser alugado.
-Bom.
-O que?
-Alugar. E você usar terno, alugado.
-Tá precisando de alguma coisa pra sua casa?
-Acho que você devia estar mais preocupado com a sua.
-É diferente.
-Sempre.
Claro que fico feliz pelo casal Brandão-Baião, gostam-se e, apesar de nem sempre isso ser o bastante para que um casal fique junto, eles se viram bem. Apoiam-se, combatem um ao outro e, por fim, estendem uma bandeira branca, assinam um termo razoável para ambos e as coisas mantem-se nesta invejável – para uns – normalidade.
Vejo a vida passar bem calma, como uma folha de caderno, antes rascunho, agora boiando, tranquilamente, por um córrego urbano, desses que, geograficamente, desaguam em boeiros.
Não acho que seja um jeito ruim de descrever o rio da vida, não tem nada de pejorativo num boeiro. Agarrado ao asfalto essas cenas são raros momentos de poesia num dia agitado entre o trabalho e o mercado, a farmácia e a portaria. -Boa noite, senhor.. -Ô! Boa noite, jovem!
E o porque de eu ter começado com um trecho sombrio como este, do Livro das Mutações, o é?
Me causa algum incômodo pensar na bagunça que compõe minha vida, pensar na dádiva da linearidade que para tantos é entregue. Gosto da imprevisibilidade que norteia meu trajeto, embora, por vezes, seja doloroso, mais até do que eu mostro ou demonstro.
Sem me alongar nisso, das imprevisibilidades , posso dizer, com algum orgulho e sem receio, que esses encontrões que me obrigam a olhar, repentinamente, por outras perspectivas, tem nesta faceta sua compensação. Isso, de ter que olhar sem mais nem menos (com calma) proutra direção. Se assim não fosse, como chegaria eu – limitado que sou! – chegar a um acordo sobre assunto tão controverso como é o casamento?
Para mim, ao que parece, o casamento acaba sendo como uma bala perdida: sempre achamos que faz parte de uma realidade muito distante, nunca vai acontecer com um amigo próximo.
[ ouvindo: Lacuna Coil - A Current Obsession ]












Tu vai encerrar o blog logo depois de uma das melhores crônicas que você já fez? (e nem é tão o seu estilo). Acho uma pena, leitores você tem! Não se trata de querer saber o que acontece com sua vida (talvez para alguns) mas de resenhar sobre o mundo e suas “mundanças”. Não empobreça o nosso já miserável mundo virtual. Voto pelo insones.com/blogs
Que pelo menos você apareça de vez em quando com bons textos como esse.
=*
JúlioX
Novembro 17, 2009 em 5:52 am
Você está sendo galanteador e eu caí na sua. Ano que vem, estreamos o insones entonces. Um microcosmo de blogs autossuficientes.
Antonio Hermida
Novembro 18, 2009 em 2:17 am
Então é uma promessa. Vou cobrar!
JúlioX
Novembro 18, 2009 em 3:23 am
tô dentro!
Lay
Novembro 18, 2009 em 1:02 pm
Mas então, vc quer acrescentar algo acerca de minha visão sobre o laço sagrado que é o matrimônio?
Antonio Hermida
Novembro 18, 2009 em 2:28 am
Não muito, apenas que balas perdidas não são mais uma boa metáfora tão boa para o inesperado pra quem mora na grande rio. Acho que tanto balas perdidas como casamentos podem sim vitimar (no bom ou mau sentido) meus amigos a qualquer momento. O importante é sobreviver a ambos.
JúlioX
Novembro 18, 2009 em 3:24 am
Se saiu bem, gafanhoto!
Antonio Hermida
Novembro 18, 2009 em 10:23 pm
Júlio é espertinho. Mas eu sou mais.
Então, Júlio, será que um belo dia, andando pela rua com seu case e sua guitarra para um “negócio” vc -BAM!- é atingido? É tão comum, néahn?
MUAAAAAAAAHHAHAHAHHAHAHAHAHAHA!
Lay
Novembro 19, 2009 em 12:22 pm
Lay, é por aí. Pelo menos às vezes a gente pode ver de onde vem o tiro
JúlioX
Novembro 20, 2009 em 5:42 am
Minha fala principal costuma ser “mais do que um relacionamento, o importante é ter uma boa relação”. Acho que já diz muita coisa.
Quanto a casamentos, não ouso comentar. Sou muito fora da realidade neste aspecto. Não consigo entender a importância que tem para a maioria das pessoas, de verdade. Mas talvez eu só seja uma pessoa deveras displicente. Ou talvez eu não esteja no estágio de compreensão social que tal temática demanda.
Lay
Novembro 17, 2009 em 11:48 am
Eu concordo com o que vc diz e acho que essa “não compreensão social” só pode vir de quem já esteve dentro ;*
Antonio Hermida
Novembro 18, 2009 em 2:18 am