A borda de um ser
ou, a fronteira entre dois nomes.
(Ou ainda: Antonios geralmente vêm acompanhados…)
Caminhando em direção ao ponto de ônibus, me deparei com uns 30 estudantes uniformizados que vinham em minha direção. Melhor, vinham em sentido oposto ao meu.
Sem pensar, fiz um movimento inocente: desloquei-me para o meio-fio, por onde segui caminhando, entre o asfalto e a calçada, os automóveis e os pedestres.
Ao mesmo tempo em que dava passagem – destacando-me dos caminhos – , colocava-me em terceira pessoa(num plano bem abstrato, como se eu não estivesse ali), como que para observar, sem ser tocado pelos turbilhões.
Num estalo percebi que essa postura sempre esteve presente em minha conduta e, maior que um traço ordinário, acho que como marca definidora (senão definitiva) de como me vejo (ou de como me vejo em oposição ao outro,o que, para mim, dá no mesmo).
Vejo as pessoas (e os automóveis) tão funcionais, que chego a me achar meio defeituoso (e meio quebrado) por ter encontrado como principal (dis/não_)função esse “ato observatório” do que há em volta. Ato que tem a ver com suprir, partindo do pressuposto que observar é guardar imagens (e suas significações) para si (o que me torna, até aqui, um mero guardador ou empilhador).Num dado momento, já não olhava as pessoas (nem os automóveis), olhava para os meus pés sobre o meio-fio, olhava para mim, e para minha situação (numa acepção mais espacial da palavra do que no sentido de vicissitude, em que normalmente é empregada). Tudo isso ilustrava-se perfeitamente na posição de meus pés, ali em cima do meio-fio. Aliás, ilustrava-se também num diálogo, ocorrido meses atrás, com um amigo.
-Como você se chama na sua cabeça?, – ele principiou.-Como assim?-Antonio ou Fabiano?-Ah, depende do que eu tenho a dizer. Quando me convém, mato o Antonio, outras vezes, o Fabiano.
Na verdade nunca matei nenhum dos dois, posto que posso, no máximo, silenciá-los individualmente por breves momentos. Visto que resido no meio-fio entre eles, e que, geralmente não sei a qual dos dois recorrer, observo (como bom guardador de entulhos) que eles é que acorrem em minha direção quando me desequilibro para um dos lados, mostrando assim, que ambos são sujeitos funcionalmente invejados por mim.













dois antonios ninguem aguenta.
por isso vc eh um antonio e um fabiano.
nem todo automovel eh funcional.
nem todo ser passante eh funcional.
nao sei o que eu quero dizer.
hal9000
Maio 19, 2009 em 7:31 pm
eu lembro quando vc tirou essa foto… tb estive lá… confesso que senti medo… confesso tb que nossos salarios e indenizações deveriam ser muito maiores pela falta de EPI =/. Eramos tolos… viviamos no abismo… e gostavamos disso.
Rafael
Julho 6, 2009 em 2:50 am
Caramba Antonio! Pqp! Quem autorizou vc a ler meus pensamentos e tranforma-los em palavras tão boas mas que não foram escritas por mim? Tb vivo a margem, observando, fazendo arquivos de memória.
Acho que escolhi a profissão certa.
Sylvia
Setembro 2, 2009 em 12:39 am
Sabe como é, Bibinha, eu tenho meus momentos…

a gente é muito marginalizado
Antonio Hermida
Setembro 2, 2009 em 5:50 pm
[...] poucos vou aprendendo a lidar com as dualidades que me definem(o cara que mora entre o Antonio e o Fabiano) mas, ainda que haja uma eternidade a minha espera, o tempo parece curto demais para ser [...]
Hermética Dicotomia « 7 Razões
Setembro 3, 2009 em 1:09 pm