Archive for Maio 24th, 2008
Herbalife
Escrevi esse conto de forma relápsa, no final isso é bem evidente. Mas, no fim das contas, o sujeito só quer ter amigos mesmo. Sugestões para o título ?
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Ele estava a espreita, observando e checando as anotações das semanas
anteriores. Observando e checando, como vinha fazendo ao longo da vida.
Seu plano não podia ter falhas, pelo menos não essa etapa, ou ele teria
problemas sérios com os quais não queria lidar.
A primeira coisa a ser checada era senão haviam testemunhas. Checado.
O próximo passo, verificar se o sujeito seguiria à risca o seu roteiro
de suas terças-feiras: Sair do trabalho, rumar para o bar, e ficar de
papo com os amigos por lá até umas 10:30. Dirigir até o edifício garagem
para guardar o carro, mais ou menos 10:45. Andar até sua casa, 4
quarteirões depois.
No caminho, logo no início da primeira quadra, parar na loja de
conveniência do posto de gasolina para comprar cigarros. Caminhar pelo
mesmo lado da rua até o semáforo mais bem iluminado. Atravessar a rua.
Mais uma quadra, beirando a praça, e finalmente, entrar no prédio onde
mora.
Teria que ser surpreendido entre o posto e o sinal, a parte mais
deserta. A praça têm mendigos anônimos que serviriam de testemunha
apenas em troca de serem escutados por alguém.
O sujeito não decepcionou, seguiu sua rotina como vinha fazendo. Um
pouco mais rápido, impulsionado pelo álcool que corria em suas veias. O
silenciador para a arma foi fácil de fazer, hoje em dia, na internet se
tem manual até para confecção de bombas atômicas caseiras.
Ele suava, pensou em fumar, mas normalmente não era um fumante, seu
coração estava a mil, seu dedo indicador direito roçava o gatilho, como
quem acaricia um cão. O suor escorria da testa pelo nariz, seus dentes
trincavam em um sorriso débil. Um misto de alegria e medo aumentavam sua
adrenalina. Mais alegria do que medo. Estava prestes a dar o primeiro
passo na construção de uma amizade. Finalmente teria um amigo de
verdade, beirando os 30, já era hora, mal podia esperar. Beijou a ponta
do dedo, e segurou firme a arma, ainda oculta no bolso da jaqueta, as
mãos cobertas por luvas suavam sensivelmente.
A sombra passou, ele saiu de traz da banca de jornal, e sem que o
sujeito percebesse, um tiro na cabeça, caiu de joelhos, depois
estatelou-se de cara no paralelepípedo. Mais dois tiros nas costas, e,
por via das dúvidas, mais um na cabeça. Guardou a arma, e furtou o
relógio e a carteira. Era melhor que parecesse um assalto.
Tentou não dar pulinhos de emoção enquanto seguia seu caminho rumo a
estação de barcas, seu cronograma estava funcionando, e os dentes
trincavam, ele tentava a todo custo não deixar o sorriso estampado em
seu rosto, seus lábios contraíam-se nessa luta.
A carteira, o relógio, a arma e as luvas, foram colocadas em uma sacola
que se estava na mochila, com alguns pedaços de ferro para fazer peso. O
ziper da sacola foi fechado, e tudo submergiu na Guanabara.
No dia seguinte, a notícia na repartição, de que um de seus mais
populares colegas havia sido assassinado em um assalto, para Júlio, não
havia surpresa, assim como não era novidade que Augusto não tinha
família além do irmão. Os colegas de trabalho, prestariam uma última
homenagem no enterro.
O irmão de Augusto, Ricardo, se sensibilizou, em especial com Júlio, que
ficou durante toda a noite em sua companhia velando o corpo. Trocaram
telefones, e Júlio passou a frequentar a casa de Ricardo. Mas Júlio não
sabia medir seus atos, e ligava para o novo amigo muitas vezes por dia.
Sempre com uma vida inteira para contar. Ele nunca tinha tido amigos, e
essa primeira experiência se mostrava satisfatória, até Ricardo começar
a dar desculpas, e chegar a mudar o número do celular tamanha
insistência. Júlio, foi até a casa de Ricardo no meio da noite,
angustiado, querendo entender por que não era mais atendido pelo melhor
e único amigo, obteve resposta pela janela: -Dá um tempo, você é muito
chato, parece uma namorada ciumenta, aliás, como você sabia onde eu
morava?!
Com o coração pesado, Júlio voltou pra casa, sabendo que tinha errado na
dose, e não cometeria mais esse erro. Conseguiu uma nova arma, e um novo
emprego, abandonando o serviço público para trabalhar num cartório, onde
começou a estudar as pessoas, de quem poderia ser amigo da família.











