7 Razões

Contos e Outras Mentiras

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Herbalife

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Escrevi esse conto de forma relápsa, no final isso é bem evidente. Mas, no fim das contas, o sujeito só quer ter amigos mesmo. Sugestões para o título ?

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Ele estava a espreita, observando e checando as anotações das semanas

anteriores. Observando e checando, como vinha fazendo ao longo da vida.

Seu plano não podia ter falhas, pelo menos não essa etapa, ou ele teria

problemas sérios com os quais não queria lidar.

A primeira coisa a ser checada era senão haviam testemunhas. Checado.

O próximo passo, verificar se o sujeito seguiria à risca o seu roteiro

de suas terças-feiras: Sair do trabalho, rumar para o bar, e ficar de

papo com os amigos por lá até umas 10:30. Dirigir até o edifício garagem

para guardar o carro, mais ou menos 10:45. Andar até sua casa, 4

quarteirões depois.

No caminho, logo no início da primeira quadra, parar na loja de

conveniência do posto de gasolina para comprar cigarros. Caminhar pelo

mesmo lado da rua até o semáforo mais bem iluminado. Atravessar a rua.

Mais uma quadra, beirando a praça, e finalmente, entrar no prédio onde

mora.

Teria que ser surpreendido entre o posto e o sinal, a parte mais

deserta. A praça têm mendigos anônimos que serviriam de testemunha

apenas em troca de serem escutados por alguém.

O sujeito não decepcionou, seguiu sua rotina como vinha fazendo. Um

pouco mais rápido, impulsionado pelo álcool que corria em suas veias. O

silenciador para a arma foi fácil de fazer, hoje em dia, na internet se

tem manual até para confecção de bombas atômicas caseiras.

Ele suava, pensou em fumar, mas normalmente não era um fumante, seu

coração estava a mil, seu dedo indicador direito roçava o gatilho, como

quem acaricia um cão. O suor escorria da testa pelo nariz, seus dentes

trincavam em um sorriso débil. Um misto de alegria e medo aumentavam sua

adrenalina. Mais alegria do que medo. Estava prestes a dar o primeiro

passo na construção de uma amizade. Finalmente teria um amigo de

verdade, beirando os 30, já era hora, mal podia esperar. Beijou a ponta

do dedo, e segurou firme a arma, ainda oculta no bolso da jaqueta, as

mãos cobertas por luvas suavam sensivelmente.

A sombra passou, ele saiu de traz da banca de jornal, e sem que o

sujeito percebesse, um tiro na cabeça, caiu de joelhos, depois

estatelou-se de cara no paralelepípedo. Mais dois tiros nas costas, e,

por via das dúvidas, mais um na cabeça. Guardou a arma, e furtou o

relógio e a carteira. Era melhor que parecesse um assalto.

Tentou não dar pulinhos de emoção enquanto seguia seu caminho rumo a

estação de barcas, seu cronograma estava funcionando, e os dentes

trincavam, ele tentava a todo custo não deixar o sorriso estampado em

seu rosto, seus lábios contraíam-se nessa luta.

A carteira, o relógio, a arma e as luvas, foram colocadas em uma sacola

que se estava na mochila, com alguns pedaços de ferro para fazer peso. O

ziper da sacola foi fechado, e tudo submergiu na Guanabara.

No dia seguinte, a notícia na repartição, de que um de seus mais

populares colegas havia sido assassinado em um assalto, para Júlio, não

havia surpresa, assim como não era novidade que Augusto não tinha

família além do irmão. Os colegas de trabalho, prestariam uma última

homenagem no enterro.

O irmão de Augusto, Ricardo, se sensibilizou, em especial com Júlio, que

ficou durante toda a noite em sua companhia velando o corpo. Trocaram

telefones, e Júlio passou a frequentar a casa de Ricardo. Mas Júlio não

sabia medir seus atos, e ligava para o novo amigo muitas vezes por dia.

Sempre com uma vida inteira para contar. Ele nunca tinha tido amigos, e

essa primeira experiência se mostrava satisfatória, até Ricardo começar

a dar desculpas, e chegar a mudar o número do celular tamanha

insistência. Júlio, foi até a casa de Ricardo no meio da noite,

angustiado, querendo entender por que não era mais atendido pelo melhor

e único amigo, obteve resposta pela janela: -Dá um tempo, você é muito

chato, parece uma namorada ciumenta, aliás, como você sabia onde eu

morava?!

Com o coração pesado, Júlio voltou pra casa, sabendo que tinha errado na

dose, e não cometeria mais esse erro. Conseguiu uma nova arma, e um novo

emprego, abandonando o serviço público para trabalhar num cartório, onde

começou a estudar as pessoas, de quem poderia ser amigo da família.

Escrito por Antonio Hermida

Maio 24, 2008 em 3:32 pm

Publicado em contos, crônica