Varejeira
[Eu realmente detestei esse texto, mas pelo menos, é curto]
Sentado e olhando para lugar nenhum. Assim eu me mantinha, com as pernas cruzadas, como um índio se jardim de infância, perdido em “não-pensamentos”, fingia ler algo sobre minha cama. Meus olhos apontavam para a parede, e no canto deles, havia a janela entreaberta. O sol entrava fraco, mas ainda se mostrava radiante como na aurora dos tempo e o toldo filtrava parte de seus raios.
Se a vida é feita de elos frágeis, eu me sentia o elo mais fraco da corrente.
Algo brilhou tomando minha atenção, um brilho claro e esverdeado, cintilava em movimentos espasmódicos, e parava. Era a emissária. Uma mosca varejeira. Tive de me conter para não chorar, mordi os lábios até sentir o gosto de sangue, sem perceber a dor. Eu não podia lidar com aquela mosca agora, faltava muito, negligenciei demais as pessoas que eu amo. O tempo é uma questão de preferência, e eu não tinha escolhido muito bem minhas prioridades.
Quando eu era mais novo, uma mosca dessas morreu em cima do meu lençol enquanto eu assistia tv. Mostrei para minha mãe, e ela disse: -Acho que foi sua vó, ela está no hospital desde ontem.
Eu olhei interrogativo, minha mãe vinha escondendo que minha vó estava internada com câncer de estômago. Ela me disse: -Sempre que uma mosca dessas aparece e morre, alguém próximo também deixa de viver, elas morrem para nos avisar.
A mosca rodou por todo o quarto, não tirei os olhos dela, fui seguindo cada movimento com o olhar, torcendo para que ela continuasse viva, eu não queria lidar com essa morte nunca, e eu sabia quem seria o próximo.
Torci o nariz, e me pensei em minha tia. Uma dessas malditas varejeiras havia morrido no meu prato de comida, uma morte fulminante durante o vôo, em cima do meu almoço. A noite tivemos a notícia.
Esperei, rezei, desprezei, e nada. Ela continuava a rondar. Seria justo dizer que algumas horas se passaram, mas na verdade foram apenas minutos, de qualquer jeito, a verdade não tem que ser justa. Dois círculos e puft. Ela estava no chão, morta.
Eu me encolhi sob meu cobertor, puxei meus joelhos para perto do meu rosto, e tentei controlar o choro convulsivo e irremediavelmente esperei que o telefone tocasse.














N achei péssimo, mas gostei mais do outro. Interessante esse lance da mosca morrer e morre alguém próximo, sinistrinho ficou isso.
:S macabro, Antônio.
Ficarei tensa sempre q se aproximar uma. Ainda bem q n sou superticiosa ;0)
Roberta
Março 28, 2008 em 4:12 pm