Corrida de cavalos
Então, eu fiquei com esse conto na cabeça por um bom tempo, e só agora consegui pensar em como desenvolver daqui pra frente. Ainda não escrevi o meio e o fim, mas já sei como desenrolar isso(vivaaaa).
Não é dos que eu menos gosto não, mas também eu não gosto muito do que eu escrevo(o que em algum nível deve ser bom). Ainda não tem nome, pensei algo simples, tipo “Trem”, mas depois pensei que faria mais sentido algo como “Cartas Marcadas”. Vou ficar com esse segundo, e ponto.
Sobre a ausência, ando sem tempo pra respirar, mas no feriado vou tirar o atraso dos blogs que leio/lia(quando tinha vida) sempre.
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-Então é isso, você vai viajar de novo?, indagou a esposa após uma sessão de tosse.
-Eu não tenho escolha, é meu trabalho, você sabia que seria assim.
-Eu não vejo meu marido nem 2 vezes por semana, isso quando tenho sorte, você acha que isso me deixa feliz? Por mim voltamos para a casa pequena, pro emprego anterior…
-Não é assim que funciona, eu não posso ficar indo e vindo, não é bom para a reputação.
-E sua reputação de marido? Você acha que as pessoas não comentam?
-Bem, estou atrasado, preciso ir.
Ela recusou o beijo, e saiu do cômodo.
No caminho para estação, Oliveira pensava a respeito do que a mulher o dissera, particularmente na parte sobre a reputação como marido.
Fofoqueiros, essa gente desocupada, vizinhança maldita!
Pagou o táxi e parou numa farmácia na entrada da estação, comprou anti-ácidos, seu estômago começara a doer assim que começou a fazer uma lista mentalmente de quem poderia estar inventando coisas. E que coisas deviam estar inventando. Malditos invejosos! Uma pessoa não pode ter um pouco de sucesso?!
Comprou os bilhetes, e rumou para a plataforma indicada no canhoto. Seriam vinte e cinco horas de viagem, como ainda tinha algum tempo comprou dois livros no sebo da estação: Seara Vermelha, de Jorge Amado, e um Pocket de ficção científica incluindo contos de vários autores. Na saída, após pegar o troco, esbarrou, enquanto ajeitava o chapéu, numa cigana, que estava sentada à esquerda do sebo, numa caixa de madeira com uma mesa improvisada por outra caixa e um quadrado de compensado.
-Me desculpe senhora, deixe me ajudar., disse Oliveira solícito.
-Sente-se, foi bom que o senhor tenha chegado., e apontou para outra caixa de madeira do outro lado da mesa.
-Pois não, senhora?
-Sente-se rapaz, e corte o baralho.
Meio confuso com a situação repentina, Oliveira obedeceu receoso.
A cigana, de uns 50 anos, cabelo ainda preto como a noite, seus cachos lhe cobriam os olhos negros, enquanto ela ordenava:
-Tire sete cartas e vire-as, uma a uma.
A primeira carta virada era uma mulher.
A segunda, um rato.
A terceira, uma lâmina.
A quarta, um chicote.
A quinta, um urso pardo,
A sexta, uma foice.
A sétima, um caixão.
Ela respirou fundo, bebericou a água e disse:
-Eu não iria se fosse você.
-Desculpe, mas não acredito nessas coisas de ver o futuro e nada dessa sorte, quanto lhe devo?
-Não faz diferença, deixe o quanto quiser sem culpa, você provavelmente não vai mais precisar desse dinheiro.
-Besteira!
Deixou uma nota qualquer sem querer saber nem de quanto era. Foi para o trem que deveria estar chegando a qualquer momento. Conferiu novamente o número da plataforma.
Mais essa agora, o que deu nessas mulheres hoje? Deve ser a lua, a gravidade… ah sei lá.
O trem chegou fazendo barulho, apitando e causando rebuliço entre as crianças, principalmente. Para Oliveira, rotina.
Sua poltrona de estimação já estava ocupada, isso o irritou ainda mais.
O que mais falta agora?
Como era de praxe começou a ler, e antes da página 30 dormiu.
Mesmo depois de dormir o dia ainda ia ficando estranho, começou a ter sonhos, coisa que não lembrava ter desde a infância. Sua mulher o sacudia para acordar, tomavam café e ele saía para trabalhar, no antigo emprego, numa pequena repartição, no sonho tinha dois filhos, o que tornava o sonho impossível, sua mulher é estéril. Ele acorda. Pastagens na janela, nada demais, menos de duas horas se passaram desde o embarque, e mais de 18 até o desembarque.
“e sua reputação de marido?”quanta ousadia, eu me matando pra dar algum conforto pra ela… eu sou um frouxo, isso sim!
Como esperava a viagem ia seguindo tranqüila, e às vinte e duas horas, as luzes do trem se apagaram, Oliveira observou as mãos, que cintilavam azuladas pela luz da lua, estava cheia, o céu sem nuvens. Passou um bom tempo observando o que conseguia ver da paisagem na escuridão, seus olhos acostumaram-se e ele distinguia claramente rebanhos e árvores, todos negros e azulados, pálidos. Fitou a lua interrogativamente, e pensou na infância, quando queria ser astronauta. Baniu o pensamento com seu racionalismo e mal-humor, usando a mesma frase que seu pai usara outrora para que ele parasse de pensar em besteiras impossíveis. Onde já viu, ser astronauta sem ter nascido soviético ou americano. A voz de seu pai retumbava em sua cabeça banindo qualquer sonho ou imaginação capaz de dar -lhe algum prazer fora da realidade. Fechou a cara, tornou a sua postura austera e fechou também as cortinas. Chegou os bolsos do casaco e puxou o cobertor para si.
Uma a uma. As cartas não saiam de sua cabeça por mais que tentasse, nem a retumbante e debochada voz do pai era capaz de expulsa-las dali. Pensou na esposa, seu coração não amolecera, ainda tinha razão sobre o trabalho, e sobre todo o resto. Carneiros pulavam a cerca sem efeito sonífero. Oliveira era tão pouco imaginativo que no lugar de ver e contar os carneiros, ele simplesmente ouvia sua própria voz dizendo “um carneirinho, dois carneirinhos, três carneirinhos, e assim por diante”. No carneirinho de número trezentos e vinte e seis, desistiu do rebanho e passou a se concentrar em sua respiração. No momento em que cruzava de um mundo para outro, entre estar acordado e dormindo, ouviu o apito do trem soar desesperada e pulou com todo o corpo para frente tentando se situar de onde estava e quem era.
Tudo estava escuro, depois tudo estava claro, uma luz branca impedia que qualquer coisa fosse vista de tão forte.
Ele acordou, estava de pé saindo da plataforma, sem saber como tinha chegado até ali. Aceitou a possibilidade de ter dormido tão bem e pesado que saíra andando no piloto automático até a plataforma.
Um mensageiro que nunca tinha visto veio correndo em sua direção com um envelope pardo gritando seu nome. O rapaz, que já não era tão rapaz assim, tinha um fino bigode e olhos esbugalhados, uma aparência de atormentado, embora conseguisse ter ao mesmo tempo uma expressão serena e pacífica, coisa que conflitava com o olhar louco. Era um sujeito estranho, usava um quepe, tinha uma maleta de mensageiro e seu uniforme era negro com botões dourados. Devia ser funcionário do hotel onde ficaria, constatou Oliveira.
Oliveira assinou o canhoto e leu o telegrama, o rapaz se afastava e sumia na multidão.
Antes, porém, o rapaz, disse:
-Cuidado com os cavalos.
Oliveira não deu atenção. Grande erro.
Prezado Senhor Oliveira,
sua esposa passa por complicações médicas graves, retorne o mais rápido possível, sinto não haver muito tempo para ela. Cuidado com os cavalos.
-Dr. Matheus Bronstein
Tudo que Oliveira conseguia ler no bilhete era:
“esposa, complicações graves, retorne”
Aturdido pela notícia repentina ficou parado sem reação enquanto pessoas esbarravam nele, releu várias vezes o telegrama até se conscientizar de que ele era o Senhor Oliveira a quem se endereçava a mensagem, e Matheus era seu vizinho e amigo, além de médico do casal.
Oliveira estava novamente no piloto automático. Dirigiu-se ao guichê e comprou sua passagem de volta. Por sorte sairia um trem agora mesmo, por acaso o mesmo que o trouxe. Sentou-se exatamente no mesmo lugar. De frente para ele um sujeito bem vestido o fitava, com o mesmo olhar do mensageiro, mas tinha a cara vermelha, como a de um turista e os cabelos eram loiro-avermelhados, no entando o mais estranho nele era que apesar da cor dos fios, o bigode era exatamente o mesmo usado pelo mensageiro. Ponderou sobre estar enlouquecendo.
Tentando se acalmar tateou a bolsa em busca de um dos dois livros que havia comprado, chegou a conclusão de que estava louco ao só encontrar uma bíblia católica dentro da valise. Livro que por sinal para ele tinha o mesmo valor e conteúdo do livro de ficção científica que buscava.














Eu tbm n gosto do q escrevo, Antônio. Mas seu conto está ótimo! Gostei msm, d verdade. Qd o terminar, gostaria d lê-lo.
Pequenas observações pessoais: contar carneirinho nunca resolveu comigo, por isso q tomo Dramim em viagens. Os vizinhos sempre são fofoqueiros, n tem jeito ¬¬
Adorei o final.
Bjs
Roberta
Março 19, 2008 em 8:23 pm