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Contos e Outras Mentiras

Sétimo Pavimento

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Eu tenho dois finais propostos pra isso, e não consigo me decidir sobre qual dos dois, um termina “bem”, o outro nem tanto, a coisa ainda está fresca na minha cabeça, fiquei uma hora escrevendo pra ver no que ia dar, e realmente preciso dormir. Espero que pela manhã esteja tudo mais claro. Não foi exatamente um prazer escrever isso, mas se eu não vomitasse essa história, eu ia acabar tendo um troço.

*Pronto, atualizado com o final*

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Eu não tenho certeza se foi a primeira vez em que fui visto por um, mas lembro exatamente de como foi o oposto. Eu dei um passo, e a lâmpada do corredor se acendeu amarelada. Hesitei, e parei por uns tempos longe dali fumando, achei que estivesse sendo observado por meu amigo e isso não passava de uma espécie de brincadeira que eu não estava entendo. Fumei um cigarro na escada. A luz estava apagada. Antes de voltar ao pequeno corredor, procurei lembrar de possíveis interruptores, mas eu nunca tinha visto nenhum ali. Foi assim que descobri, os sensores de presença. Hoje, uns 6 anos depois disso, brinco com eles sempre que posso em escadas de prédios altos, e até no antigo prédio onde ,morava com minha mãe, existem esses aparelhos agora. O do terceiro andar, onde visito minha mãe, nunca está funcionando. A lâmpada sempre trêmula sem acender sua fluorescência. Outra coisa que reparei, ao longo dos anos, no trajeto pra minha outra casa, foi que os postes, de um determinado momento da minha vida, para cá, se apagam quando eu passo por eles, e não acendem até a noite seguinte. Sempre acontece quando não estou numa maré boa. Eles têm se comportado bem, mas isso muda hoje.

Sem motivo, rodei por horas pelo centro da cidade, exatamente como fazia quando me sentia à deriva sem leme, remos, motor ou vento. E exatamente como fazia, acabei no mesmo lugar. Estou sem dormir já tem um tempo, e finalmente, me sinto desafiado a enfrentar certos medos, para saber se estou vivo. Estou vestindo minha camisa da sorte, branca, e com as estampas desbotadas. Eu não sei por que ela tem esse título, não me lembro de ela ter me trazido coisas boas, ou ruins, mas lembro de boas ocasiões com ela, além do que, ela é bem confortável, tem uma malha boa, e apenas para enrolar um pouco antes de entrar, tem estampas de um evento que aconteceu na Alemanha, BeGeistert 014. Eu nunca estive lá, mas a camisa já. Fora isso, um jeans surrado e meu mais velho par de tênis, meias cinzas.
Estou ponderando sobre entrar, sempre paro a uma certa distância daqui, mas como eu disse, me sinto desafiado. Fumo outro cigarro, atravesso a rua em direção as tábuas que tampam o que já deve ter sido a portaria desse prédio. Não tenho lanterna, o mais próximo disso, é meu celular.

Eu penso em como vai ser contar isso, e a única certeza que tenho é que não vai ser uma história bonita. Esse prédio, me assombrou por toda a vida, e mesmo não sendo uma vida muito longa, o tempo não amenizou o medo. São 3:10 da manhã, estou no centro da cidade, o prédio está desocupado desde que eu me lembro dele, parece um esqueleto abandonado na estrada, sem enterro e sem uma cruz em sinal de respeito ao morto. Deve ter uns 12 andares, não sei se era pra ser comercial ou residencial, nem faço idéia de por que está abandonado, parece uma construção sólida. Outra coisa que me eu sempre me perguntei é, por que nunca foi ocupado por moradores de rua. Ninguém ia entrar aí para aborrecer, exceto talvez eu, essa noite. As noites sem dormir deixaram meus olhos sensíveis e levemente irritados, meu raciocínio e atenção também não andam dos melhores. Uma pena ter que ser hoje.
Uma vantagem em ser magro e relativamente flexível: Você consegue se esgueirar entre ripas de madeira sem grandes problemas. Oficialmente estou dentro. Não vejo nada, meus olhos ainda estão se acostumando com a luz, a luminosidade branca do meu celular me ajuda a distinguir um metro a frente, um pouco de entulho e um piso quadriculado, preto e branco, me lembra um tabuleiro de xadrez, mas eu estou longe de ser uma peça, meus pés cobrem quase duas casas cada. É quente aqui, e o ar é velho e viciado. O cheiro é de poeira e escapamento de carro. Não tinha como ser diferente. Os 2 metros adiante, não se diferem muito dos anteriores, salvo por uma cadeira de escritório idêntica a que meu pai tinha, isso faz tempo. Atrás da cadeira, uma porta, e o que parece ser um corredor de mais ou menos um metro e vinte de largura, o piso mudou. Está mais escuro, como se as sombras fossem mais como uma fumaça, uma névoa negra que pode ser sentida batendo contra o rosto, sombras de verdade. Não sinto medo, elas só querem proteger o lugar, mesmo assim, dei três toques no meu crucifixo. Fé ou não, é sempre bom carregar suas boas intenções com você, mesmo sabendo que boas intenções são quase sempre, um atalho para o inferno. Um feixe de luz entra pelas fendas das tábuas que devem estar tampando o que era uma janela, o raio branco e fraco, aponta para, veja só, degraus. Ainda não passei por nada que se parecesse com uma porta de elevador, não que fosse fazer diferença, de qualquer jeito. Quero acreditar que esses guinchos foram de ratos, com, ou sem asas. Estou estranhamente mais cansado que quando entrei, a ordem das escadas é bem óbvia, eu tenho um pouco de uísque na mochila, vou guardar para o final. Os 6 primeiros lances se mostraram iguais. No sétimo tem uma barreira de madeira, eu quero continuar subindo. Me sinto drenado, e não é fisicamente, não consigo colocar idéias em ordem, são 3:45, e estou parado olhando pro bloqueio da escada no sétimo andar, estou só parado, não rodei pelo andar, nem fiz esforço para remover a barreira, preciso me concentrar, está mais escuro, e as sombras estão brincando, dançando de um lado pro outro, são poucas as sombras, o resto é só escuridão. Milagrosamente, tem uma janela atrás de mim, está parcialmente bloqueada, mas uma brisa abafada tenta entrar, eu quero sair, e quero sair por essa janela. Não foi difícil arrancar as tábuas, era compensado, e estava velho. Me debrucei, deixei meu corpo pender para dentro e para fora, o ar da rua, mesmo com cheiro de mijo, me reanimou um pouco. Meus pensamentos estão se encaixando novamente, não quero mais pular, quero subir. Sentei abaixo da janela e acendi um cigarro. Um segundo sem contato com o lado de fora, e as sombras já estão tentando me expulsar outra vez, não sei explicar como me sinto, acho que como numa pintura em movimento, estou com uma certeza esquisita na cabeça: Se eu dormir, eu nunca mais vou acordar.

Acho que apaguei por uns minutos, acordei com o cigarro queimando minha perna, devo ter imaginado a tal barreira por conta do cansaço, por que a subida está livre, e não tem janela nenhuma aqui. Não tinha reparado nisso antes, mas as portas de elevador estão bem na minha frente, e o piso é branco. Continuo não sabendo se isso era pra ser residencial ou comercial, mas eu arriscaria que atualmente, é residencial, algo muito estranho mora aqui, e se alguma forma de vida faz negócios aqui, eu não quero saber do que se trata. Isso foi esperto, estou sorrindo, me sinto tranquilo, as coisas estão mais claras de uma hora pra outra. Rumo ao topo.

As coisas parecem limpas daqui em diante, nenhum bloqueio, nem entulho, e estranhamente, esbarrei num cinzeiro que mesmo com a pouca luminosidade que disponho, parecia, limpo. Estou no décimo segundo andar, são 4:00 da manhã. Não sinto sombras a meu redor tentando me sufocar, nem o cheiro de viciado de antes, aqui o ar está estranhamente limpo. A noite deve estar perdendo a força.

Demorei bastante, mas enfim achei a escada de ferro que leva ao telhado. Nem acredito que estou bem, o dia já ameaça a supremacia da noite. Não tem vento, isso é a única coisa errada, também não vejo marca de vandalismo, minha pressão está meio baixa, ainda assim, acendo um cigarro, estou no topo, mas não vou até a beirada, não quero arriscar ser empurrado pelo que quer que habita esse prédio.
Novamente no sétimo andar, descer é mais fácil, não estou sentindo cansaço algum, ainda está escuro, eu devo ter alucinado que o dia estava nascendo, ou ele não chegou aqui no sétimo ainda. Me apressando para não dar explicações na saída, por que já são… 3:45…

Deve ter algo errado, a barreira de tábuas está ali, e a janela também, estou confuso, não sei se dormi, preciso de ar, esse lugar está me sufocando. Não acho meus cigarros, e minha cruz também não está comigo. O dia está nascendo, mas aqui dentro continua escuro.
Eu não acredito. Deus, eu quero chorar. Só pode ser pesadelo, foco, foco, preciso de foco, isso não está acontecendo. Aquele corpo lá embaixo não é o meu, corpo, aquele monte de carne e sangue disformes não pode ter sido o que sobrou de mim, eu não quero morrer desse jeito, não quero que minha mãe me veja assim. Puta que o pariu. Puta que o pariu. Caralho. Calma. Se eu morri, eu posso pular e conferir, mas se eu não morri, e isso é mais uma alucinação, eu vou morrer e acabar daquele jeito. Preciso de ar. Porra, um fantasma não precisa de ar. Não consigo pensar, nem sei se estou respirando. Está muito escuro. Eu não consigo me mexer direito.

Abro os olhos assustado, estou sentado, meus dedos estavam queimando com o resto do cigarro, murmuro o que poderia ter sido um grito, estou empapado de suor também, não foi dessa vez que morri, mas não sei se teria todo esse medo de morrer também, minha imaginação voou sem mim. São 22 horas, posso me mexer, o sensor do terceiro andar, nunca está funcionando. Melhor dormir um pouco.

Written by Antonio Hermida

Março 2, 2008 às 3:44 pm

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