Harmonia da Dissonância
Eu comecei esse conto em 2004, e acho que nunca mais mexi nele, até agora. Eu só sabia falar sobre gente perdida, pra falar a verdade, eu sempre era “o protagonista”, e eu sempre estive meio perdido, mas acho que achei meu norte tempos depois. E eram todos insones também, o que não surpreende, quando se passa 4 anos dormindo 3 horas por noite e trabalhando feito um louco não se pensa em muitas coisas. Atualmente eu posso dormir em praticamente qualquer lugar e ambiente, e costumo justificar com: -Gatos precisam de 18 horas de sono por dia. Já me chamaram de “gato vadio do tipo que os veterinários nunca se livram”, então…
Me deu algum prazer começar a escrever isso, vou ver se retomo essa semana as “coisas inacabadas”.
– Corre, corre !
– Pra onde ?!
– Sei lá. Pula!!!
– TÁ !
[01-01-2004 - Dia 1]
Na parte de fora dos fundos de uma igreja a chuva respinga sobre o corpo inerte de um jovem de mais ou menos 25 anos, que apesar de sempre ter aparentado idade inferior a sua, agora tem o olhar cansado de um ancião.
Seu sono desinteresado é interrompido pelo gotejar insistente da chuva que não passa de uma garoa fina, mas para seu precioso aconchego mais parece um dilúvio de proporções bíblicas.
Ele estiga os braços para o lado e numa atitude inconsciente leva a mão ao bolso esquerdo de sua jaqueta e acende um cigarro, seguido de um resmungo que não chegou a se tornar audível para quem estivesse do lado de fora da cabeça dele.
Toda noite o mesmo sonho … toda vez que eu durmo eu pulo … onde eu estou ?
Isso tem sido uma pergunta frequente, mais frequente do que ele se lembra, mas ele a faz o dia todo, todos os dias, e ainda assim, a todo despertar é a primeira vez que esse questionamento surge, seguido de “que lugar é esse?”, é sempre o mesmo sonho. O condicionamento levou seu corpo a ter atitudes automáticas e que não exigem raciocínio algum.
-Merda de chuva, né?
Ele prontamente prosta-se sentado em um impulso rápido.
-Falou comigo? -indaga procurando a origem da voz, que logo ele encontraria sentado a poucos metros dele. Um sujeito de uns 40 anos, aparentemente com menos sorte que ele, usava botas rasgadas, uma toca preta e um cobertor em volta do corpo.
-É! Merda de chuva, né? – disse o sujeito que aparentemente tinha menos sorte que ele. -
-É, é sim, uma grande merda… Pra falar a verdade, não faz tanta diferença, acho que vou ficar por aqui mais um tempo.
-Me arruma um cigarro?
Tava demorando… -Pensou
-Claro, tire dois, camarada.
-Vou ver se consigo um troco perto de uma lanchonete qualquer, valeu! – falava o homem que agora se levantava arrastando uma bolsa de pano até então despercebida.
-Vai lá. -que na sua cabeça soava como: “some e me deixa em paz” …
Ele precisava colocar a cabeça no lugar e se situar, além do que, o sujeito estava fedendo a urina e comida azeda.
O sujeito de menos sorte que ele foi se afastando enquanto arrastava sua bolsa fedorenta cheia de trapos, ao mesmo tempo o jovem recém chegado nesse mundo bisbilhotava seus bolsos procurando qualquer coisa que pudesse dizer algo sobre ele, ainda assim ele estava calmo, calmo demais para alguem que acordou na rua sem saber quem é, pra falar a verdade, o que o melhor descreve no momento é apatia, parecia um cara conformado com qualquer coisa, e a situação de dejavu era constante.
Ao apalpar um dos bolsos internos da jaqueta jeans surrada, o bolso esquerdo, encontrou um caderno envolto em um saco plástico, a capa era composta por quadrados multicoloridos que lembravam trabalhos de matérias do primário de Educação Artística. Levantou-se a procura de um lugar seco antes de tirá-lo do saco trasparente que anunciava uma loja de sapatos, e que garantia conforto para os pés.
Quando finalmente encontrou um lugar seco, pôde se sentar, mas a seu lado sentava-se uma velha, com quem ele não esbarrava a muito tempo, ela tinha os olhos desesperados e um sorriso insandecido, e com sua mão gélida envolveu o seu coração, que agora pulsava naquela mão fria e enrugada, fazendo um esforço enorme para não saltar por sua garganta, a velha, era a agonia, e queria ficar a sós com ele, que ouvia desesperado cada trombada que seu coração dava contra sua caixa toráxica, com tanta intensidade que parecia que ia explodir, calor e frio se misturavam junto ao medo de abrir o caderno, sua sanidade ia ficando para trás.
Ele achava que os poetas eram todos uns frustrados, e que escreviam coisas tristes quando eram felizes e precisavam inventar problemas, e coisas belas quando queriam se transportar de suas vidinhas medíocres para um mundo perfeito que eles idealizavam, era tudo muito triste e simples, ainda assim estava escutando tudo atentamente no sarau onde se encontraria com Daniel, que por sinal estava atrasado e os poetas já estavam acabando, um dando lugar ao outro, um aplaudindo o outro. Uma quarentona chorava em cada final feliz. Ela estava com a maquiagem borrada, um vestido roxo e tinha os cabelos num tom loiro-branco, e grandes olhos azuis, tão grandes quanto fundos.
Na cadeira a seu lado uma mulher que já estava tentando puxar papo a uns 15 minutos com frases do tipo: “Isso é lindo, não?” ou “Ele coloca tanta emoção no que fala…”, ficou horrorizada ao vê-lo bufar ao fim de uma longa poesia, como se aquilo estivesse perfurando seus tímpanos e queimando seu cérebro, por algum motivo era exatamente assim que ele se sentia, uma tortura interminável, quando a menina em questão puxou a manga de sua jaqueta com um olhar indignado, falando:
-Credo! você nunca amou ninguém?
-Até onde eu sei, eu nunca tive tempo pra isso
-Isso não me surpreende, pra falar a verdade explica seu humor, ou a ausência de um.
-Você esperava alguma piada? Realmente esperava? Eu pareço o tipo de pessoas engraçadas e socialmente ativas com quem você deve estar acostumada a conviver ?
-Qual a sua idade mesmo? 90? 95?
-Não enche, eu nem sei por que vc está falando comigo, eu não lembro de ter dito que precisava de amigos ou compania de qualquer gênero.
-Como se você se lembrasse de alguma coisa relevante…
-Escuta aqui, você não cala a boca para comer ou respirar?
-Você está pior que ontém.
-Estou com sono.
-Durma, oras.
-Não é tão simples como deitar a cabeça no travesseiro e descançar tranquilo, não posso dormir.
-Já tentou contar carneirinhos?
-Já tentou calar a porra da boca por um 3 segundos ou prender a respiração até ficar azul ?
-Não, e você?
-Se eu fingir que você não está aqui você some?
-Depende da sua força de vontade.
-Quanto tempo ainda temos que ficar nessa masmorra?
-Até seu amigo chegar.
-Certo, mas isso acaba?
-Isso o que ?
-Essa punheta mental.
-Eventualmente. Depois tem café.
-Se eu tomar mais café meu estômago vai se esfarelar.
-Azar. -Deu de ombros, fingindo não se importar.-














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Antonio
Fevereiro 22, 2008 em 6:07 am
Conto interessante.
Aguardo para saber o restante da história.
Saber o que tem a ver esse sonho dele? O que tem nesse caderno e por quê o caderno já estava dentro de um plástico (que por “coincidência” o protegeu da chuva).
E, sem querer ser chato, mas a palavra “rocho” está errada, o certo é “roxo”. E creio que “saral” seja com “u” (sarau).
Um Abraço!
Smaily
Julho 21, 2008 em 2:00 pm
Obrigado pela correção !
Quem achar erros, não hesite, comente, eu gosto de ser corrigido.
Antonio Hermida
Julho 21, 2008 em 4:23 pm