7 Razões

Contos e Outras Mentiras

Persona Dramaticæ

com 15 comentários

Alguns me caracterizam como um sujeito dramático, uma “persona dramaticae”, por assim dizer.

De fato, às vezes, assumo mesmo essa alcunha, não o suficiente, porém, para achar que eu seja, realmente, dramático. O fato de eu estar começando minha vida do dois, pela segunda ou terceira vez, em míseros 27 anos, num tempo onde a adolescência se distende tanto quanto a  aumenta estimativa de vida não diz muita coisa, com eu.

Focando no fato de que pessoas de carne e osso – e no meu caso, mais osso que carne…- não são resumidas a um ou dois adjetivos, sendo aí ponto em que se diferenciam de personagens inventadas(ou loucos varridos!) pois esses dois tipos sim!, podem ser definidos por  suas principais características, ou adjetivos,bem,  que seja.

Gente  de verdade – pessoas, como eu ou você -, de carne e osso, são compostas por mais que adjetivos, são compostas, sobretudo, por numerais e angústias, definidos por toda curva que se fecha de repente; e, eventualmente, são definidas também por suas dívidas, todo tipo delas. Há de se entrar em consenso que poucos são os numerais, independente do que meçam, mais angustiantes que certas dívidas e, sem me prolongar de mais, não conheço sorte de dívida que seja pior que as que mantemos com nós mesmos.

Me apropriando do adjetivo que me foi concedido e, aproveitando o embalo,  fazendo jus ao personagem que me foi destinado interpretar, improvisadamente,  ao longo desta vida, explicito os motivos de minha ausência, reclamo, agradeço e, por fim, entrego os pontos.

Invertendo a ordem que infligi ao escrever, primeiro agradecerei a quem é direito que eu agradeça:
Meus amigos – e que amigos! -, que transportam a mim e aos meus bens, que não são muitos, uns livros, umas roupas, um travesseiro velho, potes e canecas. Esses amigos, a eles devo agradecer. Os mesmos que me dão prato, pão e teto, enquanto as adversidades – essas curvas em “U” onde entramos à toda! -, enquanto as adversidades não me permitem prover meu próprio sustento.
Aos meus amigos, que me prestam serviços técnicos aos domingos e feriados, carregam peso em dias sufocantemente quentes, adentram madrugadas resgatando caixas, me levam para comer e, com tudo isso ou melhor, apesar de tudo isso, ainda me obrigam a sorrir(e até rir de vez em quando). A palavra balbuciada é obrigado e não mais, porque não levo jeito para ir além.

Dizem, com efeito e autoridade, que sou bem novo (além de dramático). Acho que em ambos os casos existe razão; se mensurarmos o tempo da forma mais simples possível e definirmos os parâmetros de um drama ou tragédia(isso sem negligenciar o jeito como são contados, que faz toda a diferença em fatos quotidianos), sim, posso ou não me considerar novo e dramático e, em ambos os casos, não o suficiente.  Não sou novo ou velho o bastante para estar começando (novamente) do zero – ou quase – sob escarro e escárnio de meu justíssimo pai, com quem não falo por possuirmos naturezas conflitantes e razões diversas. Acho que esse trecho merece uma explanação factual ou fatídica:

Meu bisavô teve um único filho, que almejava ser como ele. Ele era uma pessoa das mais difíceis e morreu tendo perdão renegado por minha bisavó. Geração seguinte: Meu avô, teve 6 filhos, 3 machos, 3 fêmeas. Ele e minha avó adotaram mais 6. Do total, apenas 3 dos filhos de sangue falavam/perdoaram meu avô ao fim de sua turbulenta jornada. Descemos mais uma, cuidado no desembarque: Meu pai tem dois filhos e, novamente, apenas cinquenta por cento estará falando com ele ao fim de sua estadia no planeta. Quando descermos a próxima, esperamos fazer direito.
Não negligencio o fato de ter uma excelente mãe e ter conquistado o status de filho honorário(mais por insistência que por merecimento) dos pais de alguns amigos.

Agora sim, continuando.
Já aconteceu antes, já morei na casa da vó de Bruno, passei dias na casa de Júlio, saí de casa aos 16, perdi o emprego, fui morar com meu primo, já senti fome por dias, fiquei morando de favor na casa de estranhos e de estranhos conhecidos. Sinceramente, isso não diz muito sobre mim, mais sinceramente ainda, pouco do que estou dizendo, de fato diz. Este é o próximo ponto. Um ponto sem retorno seria me levar mais a sério do que eu estou acostumado, então vou focar apenas nO ponto.

Tendo em vista que já fui dramático o bastante, já agradeci na mesma ordem e expus mais da minha vida pessoal do que me jamais exponho, joguei limpo mas  falta a notícia:

Estou fechando o blog, cancelando as atualizações futuras. Não há razão para escrever quando não se tem o que dizer e isso já é um motivo mais do que razoável.

Tentarei manter um outro blog, à  antiga, papel e caneta. Soa razoável. Acho que posso lidar com isso, carregar este peso.

fin.

[ ouvindo: Yoko Kanno  - Blue (Cowboy Bebop ending) ]


Escrito por Antonio Hermida

novembro 17, 2009 em 1:34 am

O Livro das Mutações

com 16 comentários



“O homem superior pensa no mal que está por vir e se previne contra ele.”
–O Livro das Mutações

Hoje, ao voltar do trabalho, encontrei-me com amigo, Brandão, e voltamos juntos, como é, semanalmente, ritualístico. Falando da vida, de modo geral – mas nem tanto! -, adentramos um temido assunto: casamento e implicações. Que posso eu dizer sobre esse temível assunto?
Posso dizer que já fui “ajuntado” e que a experiência, aparentemente, não me ensinou muito sobre a dinâmica, porém razoavelmente sobre companheirismo.

Brandão e eu nos conhecemos desde do início da adolescência e cruzamos esse estágio juntos, nada mais justo – e, ao mesmo tempo, estranhamente o oposto – que me convidar para ser padrinho do casal(convite ao qual não me caberia, em nenhuma realidade, declinar).

Respondi:
-Bom.
-Bom o que, estrupício?
-Isso.
-Isso o que, cacete?
-Casar e tudo mais.
-Ah, você acha isso mesmo?
-Com ressalvas, sim.
-Você vai ter que usar um terno.
-Viu?
-O que?
-As ressalvas. Ok, eu posso usar terno, aliás, fico até razoável, mas vai ser alugado.
-Bom.
-O que?
-Alugar. E você usar terno, alugado.
-Tá precisando de alguma coisa pra sua casa?
-Acho que você devia estar mais preocupado com a sua.
-É diferente.
-Sempre.

Claro que fico feliz pelo casal Brandão-Baião, gostam-se e, apesar de nem sempre isso ser o bastante para que um casal fique junto, eles se viram bem. Apoiam-se, combatem um ao outro e, por fim, estendem uma bandeira branca, assinam um termo razoável para ambos e as coisas mantem-se nesta invejável – para uns – normalidade.

Vejo a vida passar bem calma, como uma folha de caderno, antes rascunho, agora boiando, tranquilamente, por um córrego urbano, desses que, geograficamente, desaguam em boeiros.
Não acho que seja um jeito ruim de descrever o rio da vida, não tem nada de pejorativo num boeiro. Agarrado ao asfalto essas cenas são raros momentos de poesia num dia agitado entre o trabalho e o mercado, a farmácia e a portaria. -Boa noite, senhor.. -Ô! Boa noite, jovem!

E o porque de eu ter começado com um trecho sombrio como este, do Livro das Mutações, o é?
Me causa algum incômodo pensar na bagunça que compõe minha vida, pensar na dádiva da linearidade que para tantos é entregue. Gosto da imprevisibilidade que norteia meu trajeto, embora, por vezes, seja doloroso, mais até do que eu mostro ou demonstro.

Sem me alongar nisso, das imprevisibilidades , posso dizer, com algum orgulho e sem receio, que esses encontrões que me obrigam a olhar, repentinamente, por outras perspectivas, tem nesta faceta sua compensação. Isso, de ter que olhar sem mais nem menos (com calma) proutra direção. Se assim não fosse, como chegaria eu  – limitado que sou! – chegar a um acordo sobre assunto tão controverso como é o casamento?

Para mim, ao que parece, o casamento acaba sendo como uma bala perdida: sempre achamos que faz parte de uma realidade muito distante, nunca vai acontecer com um amigo próximo.

[ ouvindo: Lacuna Coil  - A Current Obsession ]

Escrito por Antonio Hermida

novembro 14, 2009 em 12:24 am

Tempus (sem tempo)

com 2 comentários

O espelho reflete a dualidade – dicotomicamente óptica – de um ser. Revela ao homem sua própria imagem, segundo uma visão subjetiva. O que desvenda-se diante de seus olhos é a a pintura de si mesmo e não, efetivamente, a realidade que se mostra ao mundo. Em outras palavras, é a verdade sobre si mesmo, invertida ou não.

O tema do espelho não exprime apenas uma subjetividade nova, existe a possibilidade de montar um jogo de espelhos. (…) Assim se pode dizer que os reflexos intermináveis são o prelúdio do labirinto abstrato da irrealidade total.

(Hocke, Gustav)

O labirinto do espelho de Da Vinci proporciona a liberdade de infindáveis reflexos ou melhor dizendo, um sem-número de visões de si mesmo, sempre atreladas, aos olhos e à perspectiva de quem olha, que passa, irremediavelmente a observado enquanto observa.

O espírito angustiado e sufocado desta criatura reside entre o reflexo e o corpo; seu reflexo passa a refletir seus gestos e impulsos no mundo que com as mãos e com a mente, transforma e transgride. HOCKE define o homem maneirista nos seguintes termos:

O homem do Maneirismo, que tem medo do espontâneo e que ama a escuridão, orgulha-se pelo fato de descobrir o sensível através de metáforas abstrusas e se esforça por captar o fantástico…

….

A melancolia saturnina identifica-se em pessoas cuja natureza é paradoxal, ou seja, são divinas ou bestiais [ou] repletas de felicidade ou oprimidas pela mais profunda miséria (PANOVSKY-SAXL apud HOCKE, 2005, p. 29). Caracteriza-se, portanto, pela inquietude, pelo abandono, pela ansiedade, pela desinstalação, indo de encontro ao ideal da perfeição. Um exemplo interessante é o teto da Capela Sistina cujas figuras apresentam genialidade, bizarrice, subjetividade e melancolia e uma busca concreta de Michelangelo Buonarroti rumo à perfeição.

(Alguns Aspectos Maneiristas na Lírica de Gregório de Matos (FAYAD, Maria Elizete de Azevedo e CURADO, Maria Eugênia)

Por tanto, não é a estagnação paralisante que o define, mas sua aceleração desmedida, essa sua hybris.

Escrito por Antonio Hermida

novembro 10, 2009 em 4:38 pm

Publicado em ?

God put a smile upon your face

com 3 comentários

Estava a ser contemplado pela incógnita não face de Cristo, pregado à parede da cozinha. Eu, deitado, fumando, divagando sobre minha condição e fome. Desejando voltar a ser bom, para mim, para todos. Encontrar paz e felicidade,  na bondade, na benevolência. Calma. No som tocava Cold Play, God put a smile upon your face. Forcei-me a pensar sobre tudo, principalmente sobre o porvir(possível apenas como projeção, de todo jeito).

Penso que fui quebrado e meus cacos não podem ser colados de volta.

Os dias passam, as noites vem e, em algumas como esta, encontro-me à deriva, bêbado. Sigo.

Miro o Cristo da parede, imortalizado em seu derradeiro momento. Sua dor e sofrimento, reproduzido um sem-número de vezes. O daqui, da cozinha, esculpido e desenhado, não da Essência, mas em arame, tecido dum único fio que se contorce, serpenteia, adquirindo os contornos do Redentor. Ele não chora; nem por sua condição, nem pela minha, nem pela da humanidade.
A mim parece razão suficiente para mascará-lo, como me convém, com olhos piedosos.
Que acolhedora cumplicidade esta seria.
Sua cabeça sobre o ombro direito, solta, pendente, numa expressão tal qual a dum  Atlas cansado e despojado do fardo que carrega, o mundo.
Não fosse demasiado, depositaria, a lápis, um sorriso terno e sereno à Santa Face, assim sorriria de volta, em retribuição.

[ ouvindo: Deep Purple - Child in Time ]

Escrito por Antonio Hermida

novembro 6, 2009 em 12:59 pm

Publicado em avulsos, crônica

O Dia dos Mortos

com um comentário

- … E, nesta noite, os espíritos dos mortos retornavam para visitar família e conhecidos. Então, garoto. Quero que me diga… É verdade? É possível os mortos retornarem? Só por cinco minutos? Para dizer a alguém que não fazia idéia de que os veria de novo, que há um lugar melhor que este,  e que eles estão esperando por ele.  Só por um minuto. O  suficiente para dizer: “até logo”.  Só por um segundo. E aí, garoto. É verdade? É possível? Porque se for, há muitos caras que eu preferiria que estivessem aqui falando comigo do que você.
- Fantasmas não existem.
- Certo.
(Millennium, The Curse of Frank Black)

[ ouvindo: Aterciopelados - Pilas! ]

Escrito por Antonio Hermida

novembro 4, 2009 em 7:06 pm

Publicado em amaldiçoado, traumas, visões

O dia das Bruxas

com 8 comentários

Está bem, garoto. Acharei uns doces se fizer uma travessura. Fechado? … Sabe por que está fazendo isso? Sabe do que se trata o Halloween? Dizem que começou com os druidas, que acreditavam que nesta noite, Saman, o senhor dos mortos, convocava os espíritos do mal. Para os celtas, era a última noite do ano, uma época propícia para prever o futuro. E os demônios e as bruxas vagavam livremente pela Terra.

A lua quase cheia, o céu quase limpo. Este era o quadro que pendia, emoldurado, na noite de dias das bruxas.
Eu, fumando, contemplava o firmamento, como de costume, esperando por um sinal. Busca que desgasta, hoje, minha paciência, outrora, minha fé.
Um anjo triste, sentado, abraçava os próprios joelhos; desenhado nas nuvens que atravessavam a lua. Seu choro era quase audível, sua tristeza, quase palpável.

Uma distração, um movimento errado no tabuleiro de xadrez e o cenário muda. O anjo e sua triste figura já se encontravam parcialmente destruídos pelo vento que infla e deforma suas asas.

O tempo de um cigarro noutra janela e o anjo já não está mais lá. Nem sua tristeza, nem seu lamento. Tudo arrastado pelo vento. Um enorme morcego agora é tingido pelo espectro lunar. Duas enormes asas compõem suas asas, uma menor, encaixada entre as duas outras, seu corpo e cabeça. Voa tão cego quanto qualquer outro. Tão cego quanto qualquer um de nós…

Ele aparece como uma nuvem.
Os mortos vivem de novo.

[ ouvindo: The Shins - Sea Legs ]

Para dizer a alguém que não fazia
idéia de que os veria de novo

Escrito por Antonio Hermida

novembro 4, 2009 em 1:19 am

Proposta para a reforma da lda

com 2 comentários

Gente amiga,já tem um tempo que acompanho o trabalho e as dificuldades da Denise Bottmann (http://naogostodeplagio.blogspot.com/) acerca dos plágios em traduções (que, infelizmente, vem se tornando “tradições”(“dá-lhe Saussure: Gato não é Pato”)) envolvendo editoras e prejudicando o bom trabalho de tradutores competentes.

Nem precisaria dizer mas como estou por aqui, direi: Pelo amor de Deus, quem, leitor assíduo, não chega as traduções do seu autor favorito. Tem preferência por esse ou por aquele tradutor? Não vou adentrar nos clichês já conhecidos e, mesmo assim, muito pertinentes, como “traduzir é reescrever, trazer para uma língua o mundo de outra”. E assim por diante.

Vale a pena conferir e dar um apoio, qualquer que seja, pela causa, porque lutar sozinho é f%$#.
Desculpem o vocabulário, mas ando estressado e acabo não escolhendo bem as palavras no eixo sintagmático (áh lá! é disso que estou falando !)

02/11/2009

proposta para a reforma da lda

esta é uma proposta simples para permitir que a sociedade possa voltar a ter acesso, em formato de livro, a tantas obras de tradução esgotadas que têm sido objeto de plágio.

Escrito por Antonio Hermida

novembro 2, 2009 em 9:44 pm

Publicado em Links, autores, escritores, relevante